A Bolha de IA e o Castelo de Cartas das Empresas Dependentes
Estamos no meio de uma bolha financeira de inteligência artificial. Mas, ao contrário da bolha da internet de 2000, o perigo não está apenas na supervalorização das ações. O risco mais profundo e sistêmico está na arquitetura de dependência que estamos construindo: uma geração de empresas cujos produtos e serviços essenciais são construídos sobre as fundações instáveis de um punhado de provedores de IA financeiramente frágeis.
O que vejo hoje é uma mistura de euforia tecnológica e miopia estratégica. Empresas estão terceirizando sua inteligência para nomes como OpenAI e Anthropic, seduzidas pela conveniência de suas APIs, sem entender o risco existencial que estão assumindo.
Este artigo aprofunda os dados por trás da bolha, analisa o risco da dependência de fornecedores e oferece um caminho para a resiliência.
Os Números da Bolha: Euforia e Irracionalidade
Os sinais de uma bolha são inegáveis e vêm de múltiplas fontes:
- Investimento Massivo: O Morgan Stanley estima que as Big Techs investirão US$ 3 trilhões em infraestrutura de IA até 2028, com metade desse valor financiado por dívidas [1].
- Percepção de Risco: Em novembro de 2025, 45% dos gestores de fundos globais consideravam a bolha de IA o maior risco para o mercado, segundo o Bank of America [2].
- Falta de Lucratividade: Um estudo do MIT de julho de 2025 revelou que 95% das empresas que investiram em IA ainda não conseguiram lucrar com a tecnologia [3].
- Ceticismo de Líderes: O próprio CEO do Google admitiu em novembro que o boom de investimentos em IA tem "elementos de irracionalidade" [4].
O epicentro dessa bolha são as empresas de modelos de linguagem (LLMs). A OpenAI, por exemplo, apesar de uma receita de US$ 4,3 bilhões no primeiro semestre de 2025, acumulou um prejuízo de US$ 13,5 bilhões no mesmo período. Estamos testemunhando uma era de crescimento a qualquer custo, financiada por capital de risco e dívidas, em uma escala que lembra a bolha da internet.
A Teia de Investimentos Cruzados: Fabricando a Própria Demanda
Um fenômeno único desta bolha é a "teia" de investimentos cruzados, onde fornecedores investem em seus próprios clientes, criando uma demanda artificial.
"Existe um grande risco, principalmente quando observa que são [investimentos] cruzados, porque qualquer dificuldade que alguma empresa possa passar o sistema todo corre risco." — Alcides Peron, Professor da Unicamp [5]
O exemplo mais claro é a relação entre Nvidia e OpenAI. A Nvidia, fabricante de GPUs essenciais para IA, anunciou planos de investir até US$ 100 bilhões na OpenAI. Ao mesmo tempo, a OpenAI é um dos maiores compradores de GPUs da Nvidia. Essa circularidade infla as avaliações e cria um risco sistêmico: se a OpenAI falhar, o impacto em cascata pode abalar todo o ecossistema.
William Castro Alves, da Avenue, observa que "se algo ocorrer com a OpenAI, vai levantar dúvidas sobre todo o resto" [5].
O Risco Oculto: Construindo em Terreno Alugado
O verdadeiro perigo para a maioria das empresas não é a bolha em si, mas a dependência estratégica que ela está criando. Ao construir um produto cujo serviço principal depende de uma API da OpenAI, uma empresa está, na prática, construindo seu negócio em terreno alugado. E o proprietário desse terreno é financeiramente instável.
Os riscos para essas empresas "casca" são existenciais:
- Volatilidade de Preços: Um provedor de IA deficitário, sob pressão de investidores, pode dobrar ou triplicar os preços de sua API da noite para o dia, destruindo a margem de lucro de seus clientes.
- Risco de Descontinuação: Modelos podem ser descontinuados por razões estratégicas ou de custo, forçando empresas a reconstruir seus produtos em tempo recorde.
- Risco de Falência: O que acontece se um provedor de IA queimar todo o seu capital e falir? A API desliga, e com ela, o core business de milhares de empresas dependentes.
- Lock-in Tecnológico: A integração profunda com uma API específica cria uma barreira de saída enorme, tornando a migração para um concorrente ou para uma solução open-source cara e demorada.
Estamos criando uma geração de empresas que não possuem sua própria inteligência. Elas são meras interfaces para a inteligência de terceiros, assumindo todo o risco do negócio sem controlar a tecnologia subjacente.
O Caminho para a Resiliência: Soberania Tecnológica Corporativa
Como líder de dados, minha recomendação não é evitar a IA, mas abordá-la com soberania estratégica. A solução não é a negação, mas a diversificação e o controle.
1. Adote uma Estratégia Híbrida
Não aposte tudo em um único fornecedor. Use APIs de grandes players para tarefas não críticas ou para prototipagem rápida, mas invista em paralelo no desenvolvimento de capacidades internas.
2. Invista em Modelos Open-Source
A verdadeira revolução da IA está acontecendo no open-source (Llama, Mistral, etc.). Treinar ou fazer o fine-tuning de um modelo open-source em seus próprios dados oferece:
- Controle: Você controla o modelo, os dados e o custo.
- Privacidade: Dados sensíveis não saem da sua infraestrutura.
- Diferenciação: Você pode criar um modelo especializado para o seu nicho, algo que a OpenAI nunca oferecerá.
3. Construa Expertise Interna
Terceirizar a inteligência é terceirizar sua vantagem competitiva. Contrate e treine engenheiros de machine learning, cientistas de dados e especialistas em MLOps. O custo de uma equipe interna pode ser menor do que o risco de dependência de longo prazo.
4. Tenha um Plano de Contingência
Para cada serviço de IA de terceiros que você usa, pergunte-se: "O que faremos se esta API desligar amanhã?". Tenha um plano de contingência claro, seja migrar para outro provedor ou ativar uma solução interna.
Conclusão: A Escolha entre Conveniência e Controle
A era da IA nos apresenta uma escolha fundamental: a conveniência da dependência ou o trabalho árduo do controle. A sedução de construir rapidamente sobre APIs poderosas é imensa, mas o custo oculto é a perda de soberania estratégica.
A bolha de IA, quando estourar, não vai apenas corrigir as avaliações de mercado. Ela vai expor a fragilidade das empresas que escolheram construir seus castelos em areia movediça.
A mensagem para líderes de tecnologia e empreendedores é clara: use a IA, abrace seu poder, mas não construa sua casa em terreno alugado. A verdadeira vantagem competitiva no futuro não virá de usar a IA de outra pessoa, mas de construir a sua própria.
Referências
[1] NPR. "Here's why concerns about an AI bubble are bigger than ever". Publicado em 23 de novembro de 2025. Acessado em 09 de dezembro de 2025. https://www.npr.org/2025/11/23/nx-s1-5615410/ai-bubble-nvidia-openai-revenue-bust-data-centers
[2] Bank of America. "Global Fund Manager Survey". Publicado em novembro de 2025.
[3] MIT. "Study on AI Investment Returns". Publicado em julho de 2025.
[4] BBC. "Google boss says trillion-dollar AI investment boom has 'elements of irrationality'". Publicado em 18 de novembro de 2025.
[5] CNN Brasil. "É bolha? Empresas da IA criam 'teia' de investimentos na área da tecnologia". Publicado em 01 de dezembro de 2025. Acessado em 09 de dezembro de 2025. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/e-bolha-empresas-da-ia-criam-teia-de-investimentos-na-area-da-tecnologia/