Por Que a Microsoft Escolheu Claude (e Não o Copilot) para o Power BI?

12 de dezembro de 202514 visualizações

No início de dezembro, a Microsoft fez um anúncio que, para a maioria, pareceu apenas mais uma atualização de produto, mas que para líderes de dados e estrategistas de tecnologia, foi um verdadeiro terremoto tectônico. A empresa anunciou a integração do Claude, modelo de IA da Anthropic, ao Power BI Desktop, permitindo a criação de medidas DAX, tabelas e documentação via inteligência artificial.

A notícia foi celebrada pela comunidade de dados como um grande avanço em produtividade. Mas por trás da euforia, uma pergunta fundamental e desconfortável ficou no ar, uma pergunta que poucos estão fazendo em voz alta:

Por que a Microsoft usou o Claude, e não o seu próprio Copilot, baseado na tecnologia da OpenAI?

Essa decisão não foi um mero detalhe técnico. Foi um sinal, uma mensagem estratégica da empresa mais poderosa do mundo em IA para todo o mercado. Uma mensagem sobre risco, dependência e o futuro da inteligência artificial.

Neste artigo, vamos aprofundar as razões técnicas, financeiras e estratégicas por trás dessa escolha e o que ela significa para você, profissional de dados.

A Razão Técnica: DAX é Difícil (e o Copilot Não é Bom o Suficiente)

A primeira e mais óbvia razão é puramente técnica. DAX (Data Analysis Expressions), a linguagem de fórmulas do Power BI, não é como escrever um e-mail ou um post de blog. É uma linguagem funcional complexa que exige raciocínio lógico profundo, compreensão de contexto de filtro e navegação em modelos de dados relacionais.

O GPT-4, motor do Copilot, é um modelo de linguagem generalista, brilhante em criatividade e linguagem natural. Mas quando se trata de lógica estruturada e código complexo, ele tem limitações. O Claude 3.5 Sonnet, da Anthropic, por outro lado, foi projetado com uma arquitetura que se destaca em tarefas de raciocínio, código e matemática.

Os benchmarks independentes confirmam essa especialização:

Benchmark (Avaliação de Código)Claude 3.5 SonnetGPT-4 (usado no Copilot)
HumanEval (Python)92.0%87.1%
SQL Generation (Spider)89.5%85.2%
Raciocínio Lógico (ARC-AGI-2)51.2%42.8%

Fonte: Dados compilados de relatórios técnicos da Anthropic e OpenAI, Nov. 2025.

O que esses números mostram é que, para a tarefa específica de gerar DAX, o Claude é simplesmente a ferramenta superior. A Microsoft, pragmática como sempre, escolheu a melhor tecnologia para o trabalho, mesmo que isso significasse usar o produto de um concorrente direto da sua maior aposta, a OpenAI.

A Razão Estratégica: Mitigando o Risco da Dependência

Esta é a razão mais profunda e a que mais deveria preocupar os líderes de tecnologia. A decisão da Microsoft é um movimento clássico de mitigação de risco de fornecedor.

Como discuti em meu artigo anterior sobre a bolha de IA, a OpenAI, apesar de sua receita bilionária, é uma empresa financeiramente instável. No primeiro semestre de 2025, acumulou um prejuízo de US$ 13,5 bilhões. Ela sobrevive de investimentos massivos, principalmente da própria Microsoft.

Ao integrar o Claude no Power BI, a Microsoft está nos enviando uma mensagem clara:

Nem nós, que investimos US$ 13 bilhões na OpenAI, estamos dispostos a apostar 100% do nosso futuro em um único provedor de IA.

Se a Microsoft, que tem assento no conselho da OpenAI e acesso privilegiado à sua tecnologia, sente a necessidade de diversificar, por que sua empresa, que é apenas mais um cliente da API, não sentiria?

Este movimento expõe a fragilidade do ecossistema. A Microsoft sabe que depender de um único fornecedor, por mais promissor que seja, é um risco existencial. E ela está, na prática, nos mostrando como agir: não construa sua casa em terreno alugado.

A Razão de Mercado: O Fim do Monopólio da IA

A era em que "IA" era sinônimo de "OpenAI" acabou. Estamos entrando em um mundo multi-polar de IA, onde diferentes modelos têm diferentes especialidades. A decisão da Microsoft é o reconhecimento oficial dessa nova realidade.

  • OpenAI (GPT-4): Excelente em linguagem natural, criatividade, brainstorming.
  • Anthropic (Claude): Superior em código, lógica, matemática, tarefas estruturadas.
  • Google (Gemini): Forte em multimodalidade (texto, imagem, vídeo) e integração com ecossistema Google.
  • Meta (Llama): Líder em open-source, permitindo customização e controle.

Usar o Claude no Power BI não é uma traição à OpenAI. É a escolha da ferramenta certa para o trabalho. É como um carpinteiro que usa um martelo para pregos e uma chave de fenda para parafusos. Cada modelo de IA é uma ferramenta com uma finalidade específica.

O Que Isso Significa Para Você, Profissional de Dados?

A integração do Claude no Power BI é, sem dúvida, um ganho de produtividade. Mas a lição mais importante não está na ferramenta, mas na estratégia por trás dela.

1. Abrace a Produtividade, Mas Não Terceirize Seu Conhecimento: Use o Claude para acelerar a criação de medidas DAX, mas não o use como uma caixa preta. Se você não entende o código que a IA gerou, você não tem controle. E sem controle, você é apenas um operador de ferramentas, não um especialista.

2. Aprenda os Fundamentos (Agora Mais do Que Nunca): A IA é um assistente, não um substituto para o conhecimento fundamental. A necessidade de entender DAX, modelagem de dados e governança não diminuiu; ela aumentou. Agora, além de saber construir, você precisa saber auditar e corrigir o que a IA constrói.

3. Pense como a Microsoft: Diversifique: Ao construir soluções de IA para sua empresa, não aposte tudo em um único provedor. Explore modelos open-source, combine APIs de diferentes fornecedores e construa expertise interna. A resiliência está na diversificação.

Conclusão: A Verdade Inconveniente

A decisão da Microsoft de usar o Claude no Power BI é a admissão pública de uma verdade inconveniente: a corrida da IA não tem um vencedor claro, e a dependência de um único fornecedor é uma estratégia perdedora.

Para nós, profissionais de dados, a mensagem é clara. A era da IA não é sobre substituir nossas habilidades, mas sobre aumentá-las. E a habilidade mais importante no futuro não será saber usar uma ferramenta de IA, mas ter o discernimento crítico para saber qual ferramenta usar, por que usar e, o mais importante, quando não usar.

A Microsoft escolheu a melhor ferramenta para o trabalho. Você deveria fazer o mesmo.


Referências

  • Dados de benchmarks compilados de relatórios técnicos da Anthropic e OpenAI (Nov. 2025).
  • Análise financeira da OpenAI baseada em relatórios de mercado (1º semestre 2025).
  • Anúncio da Microsoft sobre a integração do Claude no Power BI (Dez. 2025).

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